A Cidade e as Serras (1901) - Uma crítica ao homem moderno

13:36

O escritor português Eça de Queirós (1845-1900), teve no ano de 1901 uma obra póstuma publicada, trata-se de nada menos do que o livro A Cidade e as Serras.A história foi construída a partir de um conto do autor intitulado Civilização (1892), no qual eram narradas situações vividas pelas personagens Zé Fernandes e Jacinto.

As Cidades e as Serras livro

                                                          Mulheres passeando por Lisboa em 1905.

Antes de ir ao suprassumo, que é ideia central de as Cidade e as Serras, darei um breve resumo.


Sinopse

A Cidade e as Serras é um livro que apresenta o tipo de narrador-personagem, neste caso, Zé Fernandes conta da sua hospedagem em Paris, na casa de seu grande amigo Jacinto de Tormes. Tanto Zé Fernandes, como a família de Jacinto possuem raízes em Portugal, entretanto, Jacinto cresce na capital francesa e aos modos franceses;  não mantendo qualquer tipo de vínculo com a terra de seus ancestrais.

''Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o céu de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado, saíamos depois do almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito querido de Jacinto – porque neles mais intensamente e mais minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha companhia, só lhe davam uma impaciência e uma fadiga que desoladamente destoava do antigo, iluminado êxtase''. Capítulo III.

As Cidades e as Serras resumo
                                           Interior português na década de 50 fotografado por Artur Pastor.

Jacinto é extremamente rico, inteligente e conhecido nos círculos parisienses, possui uma grande fortuna e bastante prestígio, todavia, se sente farto.O mundo de Jacinto e a maneira como passa a enxergar a vida mudam completamente quando por motivos familiares ele decide fazer uma viagem para Portugal, país agrário e distinto do que ele estava acostumado.

Equação Metafísica

A história principal se passa na segunda metade do século 19, Jacinto é a representação do homem moderno.Um homem movido à eletricidade e à busca pelo conhecimento tecnicista.Em uma das passagens é apresentado ao leitor a Equação Metafísica de Jacinto, no qual ele discorre que suma potência x suma ciência = suma felicidade.

O que quer dizer esta fórmula? O conjunto de poder (potência) e a própria tecnologia e conhecimento humano (ciência), seriam capazes de proporcionar ao ser humano a plena felicidade.Essa é uma visão do mundo completamente ligada ao Positivismo, porque Jacinto é positivista e acredita cegamente que a vida urbana é superior à vida rural.Ele abomina o campo e os pensamentos religiosos, que são considerados pelos positivistas como resquícios do primitivismo.

Crítica à elite portuguesa

Um outro ponto interessante de A Cidade e as Serras é a crítica que Eça faz ao comportamento da elite portuguesa, uma elite sem originalidade, afastada dos costumes de Portugal e cópia do modo de viver francês.Durante o século 19, França e Inglaterra eram as grandes potências do mundo.Paris era o centro das artes e do glamour.Países agrários como Espanha, Rússia e Portugal tinham uma população que frequentemente consumia e vivia o mais parecido possível com os franceses.

As Cidades e as Serras resenha


                               Centro de Lisboa em data não especificada, mas provavelmente é começo do séc.20.

''Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolência, é necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato!'' Capítulo III.

Se para Jacinto a vida na cidade era melhor e mais produtiva, Zé Fernandes julgava isso o oposto, contudo, ele próprio em certa altura do livro é transformado pelo meio (cidade) e passa a se envolver com uma cortesã, ou no uso popular, uma prostituta de luxo, relação esta que era nociva.

O ponto de equilíbrio

Assim que Jacinto faz sua viagem para Portugal, ele se depara com uma organização social arcaica e desprovida de tecnologia.A população do campo português era pobre e sem nenhum recurso.Jacinto se debate para acostumar-se à uma vida sem luxos, mas, ao mesmo tempo se incomoda com a situação de abandono em qual se encontra aquela gente que passa a ser a sua gente também.

Eça de Queirós nos brinda finalmente com o pensamento de que a suma felicidade reside no equilíbrio e não nos excessos ou na escassez.O progresso não precisa minar com as tradições de um povo, em contrapartida, o apego às tradições não podem de maneira nenhuma permitir que um país se fixe no atraso.A virtude do homem, por tanto, como já havia teorizado Aristóteles, é conquistada através do justo-meio.

Antiguinhas

33 comentários

  1. ah que legal, acho que do eça eu só li o primo basilio no periodo da escola, mas lembro que adorei a trama, achei o livro super bem escrito! tenho a impressao de que eu gostaria mt desse tbm!

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O Primo Basílio é clássico do Eça, mas eu ainda não parei para ler.

      Excluir
  2. Oi Gabi, tudo bem?
    Gostei bastante da análise, mas o livro não me chamou muito a atenção.
    Eça nunca me deixou curiosa, nem quando eu o estudava na escola e no cursinho.
    Beijos,

    Priscilla
    Infinitas Vidas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu gosto do Eça, o primeiro romance que eu li foi um dele, O Crime do Padre Amaro, mas às vezes eu acho que as histórias dele, embora sejam ótimas, a maioria demora a engatar, demora um pouco até prender o leitor.

      Excluir
  3. Oi Gabriela, eu sempre achei que o último livro do Eça tinha sido A Ilustre Casa de Ramires, não sabia que ele tinha uma obra póstuma. Bacana demais descobrir isso, suas resenhas sempre maravilhosas!

    http://naomemandeflores.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não, A Ilustre Casa de Ramires é o último livro dele publicado em vida, mas tem As Cidades e as Serras como obra póstuma.

      Beijos

      Excluir
  4. Gostei dessa... a felicidade está no equilíbrio! Afinal tudo que é de mais, ou de menos não nos fazbem!

    ツ Bjinhos,
    ❥ Blog Amiga Delicada ❥ FanPage ❥ Twitter

    ResponderExcluir
  5. Nunca li e confesso que não me chamou muita atenção..não consigo me prender nesses livros :(
    Beeijos,

    www.marinaalessandra.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É questão de gosto, os livros do Eça têm o costume de demorar pra prender o leitor (quando prende).

      Excluir
  6. Nunca li. Aliás, nunca li Eça, na escola vi o resumo de O primo Basílio. E O Crime do padre Amaro minha mãe me contou a história quando ela leu, rs. Não faz meu estilo de leitura.

    Beijos/Xoxo.

    Anete Oliveira
    Blog Coisitas e Coisinhas
    Fan Page Coisitas e Coisinhas
    Instagram

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O Crime do Padre Amaro foi meu primeiro contato com o Realismo.

      Excluir
  7. Esse é novo pra mim, porque eu não conhecia nenhum desses títulos ainda. Gostei por ele fazer crítica à elite portuguesa, poucos autores faziam isso. Hoje em dia é mais fácil de "criticar" ou dar sua opinião sem que os outros achem ruim, porque agora tem as pessoas que são a favor, não só as que são contras né? Enfim, achei interessante.

    Beijos!
    www.likeparadise.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hoje em dia existe mais liberdade para fazer críticas, claro que nem todos os assuntos podem ser debatidos da mesma forma, mas evoluímos muito nesse aspecto.

      Beijos

      Excluir
  8. Nunca li esse livro do Eça, se não me engano que eu li foram Primo Basílio (que eu gosto bastante) e Crime do Padre Amaro. Li na época do ensino médio, então acho que tá na hora de voltar a lê-los xD Gosto bastante de ler livros com narrativa leitor-personagem, acho que até prefiro assim.

    Um beijo!
    Heeey, Maria! | Fanpage

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu gosto, mas ainda assim prefiro o narrador onisciente.

      Excluir
  9. Eu acho que já li uns trechos das obras dele nas aulas de português, mas não li um livro inteiro, achei muiiito interessante essa obra. Principalmente pela crítica a cópia das outras culturas/sociedades e falta de originalidade. Ficou muito bom o post, gostoso de ler e informativo.


    Beijos
    Brilho de Aluguel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. =) Que bom que gostou, Thay.

      Beijos

      Excluir
  10. Já tinha ouvido falar desse clássico, mas não fazia ideia de que era uma obra tão densa! Levo essa ideia de equilíbrio para a vida, porque, com certeza, é a única maneira de se sentir realmente feliz e em paz. Ótima sugestão. Beijos!
    Blog Vintee5 | Canal Vintee5

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Com certeza, essa é a ideia central do filme com certeza, e é algo que eu também tomo como lema para a minha vida.

      Beijão

      Excluir
  11. Aqueles lencinhos são perfeitos para quem necessita de algo sem aroma! E o preço online está compensando! ;D

    Em algum momento da minha vida tive que ler Eça de Queirós. Mas não me lembro qual título li (imagina então a história! hahaha). A única coisa que me recordo é que a leitura era complexa! E achei "A Cidade e as Serras" assim. No meu caso, acho que teria que ler mais de uma vez para entender a profundidade da história!

    Ótima quinta!

    Beijo! ^^

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É um livro denso pela escrita altamente descritiva do Eça, por isso, nem sempre ler um livro dele é a coisa mais fácil, mas depois vamos pegando o jeito.Eu li O Crime do Padre quando tinha 12 anos e sinto que preciso ler de novo porque muita coisa mudou.

      Excluir
  12. Adoro ver fotos do início do século... passado né ? Kkkk.

    E você como sempre dando um banho de cultura.

    Beijo lindona !

    | O Blog Que Não é Blog |

    | Instagram: @aquelenaoblog |

    | Julinha e os Vídeos - Canal no Youtube |

    ResponderExcluir
  13. Que resenha maravilhosa! <3

    www.kailagarcia.com

    ResponderExcluir
  14. Que post perfeito, Gabi!
    Texto, resenha e imagens ... tudo muito bem selecionado. Pude ter uma boa noção da importância de uma obra que até então eu não conheço tão profundamente, mas os pontos que você levantou são interessantes. Gostinho de aula de literatura, rsrs ^^

    Bom fim de semana!

    Beijos,
    Pri
    www.vintagepri.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico extremamente feliz que você gostou, Pri! Selecionei as imagens com muito carinho!

      Beijos

      Excluir
  15. Terminei de ler esse livro por esses dias, é uma das leituras obrigatórias da Fuvest e devo dizer que sinto que essa sua postagem vai me ajudar no futuro graças a essa analise mais minuciosa da leitura.

    XOXO Gabbs,
    Feche a Porta

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que sirva de algo e desejo boa prova para você (:

      Excluir
  16. Os livros do Eça não me prendem, mas amei a sua análise.

    Beijos ♥

    Jéssica || Fashion Jacket
    www.fashionjacket.com.br

    ResponderExcluir
  17. Que resenha maravilhosa! Não li a obra ainda, mas adorei mergulhar desde já nos pontos mais críticos. Adorei a forma como desenlaçou de maneira sutil, porém aprofundada, os quesitos mais reflexivos da base.

    SEMQUASES.COM

    ResponderExcluir
  18. Gosto demais de enredos passados em outros séculos. Eu mesmo as vezes tenho a impressão de ter nascido na época errada. Amei a dica, vou tentar encontrar para ler nas férias. Tenha um dia abençoado, beijos!

    Blog Paisagem de Janela
    paisagemdejanela.blogspot.com.br

    ResponderExcluir